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Conto: Monstro Mitológico

Era o primeiro amor dela e administrar tudo o que vem junto com o primeiro amor, aos nove anos, não é lá muito fácil. Ainda não sabia muito bem o que fazer com aqueles sentimentos. Uma mistura de querer estar perto, com socar até tirar sangue. Uma vontade de correr dele e para ele; tudo ao mesmo tempo.

No início, achava que ele era um bobão. Achava feio, nojento e até se surpreendia por ele ter tantos amigos.

Um dia olhou melhor e viu o jeito de ele tirar o cabelo dos olhos. Depois, notou como o sorriso dele era bonito. Naquele dia tentou entender como podia pensar nele daquela maneira. Ela ainda o achava um bobão, mas um bobão charmoso.

Aos poucos reconheceu que estava sendo muito exigente. Além do sorriso bonito e do charme ao tirar o cabelo dos olhos, ele também era muito bom em matemática e sabia ser legal quando queria.

Ela percebeu que só fazia pensar nele. Que de manhã, ao se arrumar para a escola, se perguntava se ele ia reparar que ela tinha mudado o jeito de prender o cabelo. E que nos dias em que ele faltava aula, a escola perdia toda a graça.

Sentia seu estômago embrulhar e dar várias cambalhotas quando o via entrar pelo portão da escola. O seguia com o olhar o tempo todo e, só de ouvir sua voz na chamada, se sentia mais próxima dele.

Eles se conheciam desde o jardim de infância, mas como ela não se aproximava muito dos meninos, “Aqueles bobos com fixação em cavaleiros do Zodíaco!”, nunca tinha notado que os olhos dele mudavam de cor nos dias mais claros.

A forma que encontrou para se aproximar dele foi o futebol. Todos os meninos que ela conhecia gostavam de futebol, e ele não era diferente.

Então começou a prestar atenção nas conversas do seu irmão mais velho e pescava uma informação aqui e outra ali. Estava tão empenhada que, em pouco tempo, já havia se tornado uma autoridade em futebol.

Àquela altura ele já tinha se transformado em um semideus, e ela não via mais defeito algum.

Naquele fatídico dia, ela se aproximou da rodinha de meninos que conversavam animados sobre futebol e disse algo sobre o campeonato brasileiro. Um comentário qualquer sobre a conversa que estava se desenrolando ali. Um comentário qualquer, mas pertinente e inteligente. Quando ele se virou para vê-la, os olhos dela se encheram de esperança na mesma velocidade em que se espremeram de raiva. O semideus foi se transformando em um monstro mitológico a cada palavra que saía de sua boca: “Mulher não entende nada de futebol. Entende de bonecas e panelas.”.

E assim o seu primeiro amor platônico foi enterrado para todo o sempre. Pois podia passar por cima do fato de ele gostar de Cavaleiros do Zodíaco, mas nunca o perdoaria por ser machista.


Maíra Gomes



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